
Bruna Caleffi: Eu quis escrever sobre fagofobia porque esse medo pode passar despercebido por muito tempo, mesmo quando já está mudando a forma de comer, beber e circular socialmente. Quando a alimentação vira fonte de tensão, a pessoa merece acolhimento e avaliação cuidadosa, não julgamento.
O Que é Fagofobia e Seus Sintomas?
Fagofobia é o medo intenso de engasgar ao engolir alimentos ou líquidos. Em geral, não há uma alteração anatômica ou fisiológica que explique esse receio. Mesmo assim, a pessoa passa a evitar comer ou beber, porque a experiência de engolir é vivida como ameaçadora.
Um estudo de Rijal e Pokhrel (2024) observou que a fagofobia pode aparecer depois de um episódio de aspiração ou engasgo e, em alguns casos, ser mantida por outra experiência parecida depois. Já um estudo de Çolak Sivri, Hızarcıoğlu Gülşen e Yılmaz (2018) observou um caso em que o quadro surgiu após a pessoa testemunhar o pai engasgando enquanto comia.
Os sinais mais comuns incluem:
- medo intenso antes ou durante a deglutição;
- evitar alimentos sólidos, líquidos ou ambos;
- sensação de que a comida vai parar na garganta ou na traqueia;
- redução da ingestão por receio de engasgar;
- perda de peso ou preocupação com a alimentação;
- isolamento social em situações que envolvem comida.
Esse medo pode se confundir com outras condições físicas ou com outros quadros de alimentação restritiva. Por isso, um estudo de Case Reports in Psychiatry (2024) observou que a fagofobia pode ser subdiagnosticada e confundida com problemas somáticos. O reconhecimento precoce é importante para que a pessoa não fique cada vez mais limitada na alimentação e no convívio social.
Quando o medo de engolir começa a ocupar espaço demais na rotina, vale buscar avaliação profissional. Isso ajuda a diferenciar o que é uma dificuldade física do que pode estar relacionado a um medo específico, além de evitar o agravamento do sofrimento emocional.
Tratamentos Eficazes para Fagofobia
Quando a fagofobia aparece, o primeiro passo costuma ser diferenciar o medo de engolir de outras condições físicas e de quadros alimentares que podem parecer parecidos. Um estudo de Khallouk et al. (2024) observou que essa avaliação cuidadosa é importante porque o quadro pode ser confundido com alterações orgânicas ou com transtornos alimentares.
Entre as abordagens com melhor suporte nas fontes disponíveis, a terapia comportamental com exposição gradual aparece com destaque. No estudo de Begotka et al. (2022), crianças e adolescentes passaram por um protocolo com aumento progressivo da exposição aos alimentos, junto de estratégias para reduzir a ansiedade. Ao final do acompanhamento, houve melhora na alimentação e no peso, além de diminuição do desconforto relatado durante o processo.
Em crianças, o envolvimento da família também faz diferença. No estudo de Khallouk et al. (2024), a orientação aos pais e a terapia comportamental foram usadas com bons resultados. Isso reforça que o cuidado tende a funcionar melhor quando não fica restrito à pessoa, mas inclui o contexto em que ela come e convive.
Quando há história de trauma relacionada ao engasgo, a literatura também menciona recursos voltados para essa vivência. Ainda assim, a fonte disponível não permite tratar isso como regra para todos os casos. O que ela mostra é que, quando o medo surgiu depois de um episódio marcante, a avaliação clínica precisa considerar essa relação com cuidado.
Em alguns casos, medicação pode entrar como apoio no manejo, sempre dentro de avaliação psiquiátrica. Um estudo de Çolak Sivri et al. (2018) relatou melhora em uma adolescente após uso de aripiprazol em baixa dose como complemento. Isso não define um tratamento padrão para fagofobia, mas mostra que a conduta medicamentosa pode ser considerada em situações selecionadas por profissional habilitado.
Na prática, os estudos apontam para uma linha de cuidado parecida: avaliação médica inicial, acompanhamento em saúde mental e intervenção comportamental com exposição gradual. Em Rijal e Pokhrel (2024), um caso de longa duração melhorou depois de atendimento psiquiátrico e medidas comportamentais, o que reforça a importância de não adiar a busca por ajuda quando o medo começa a limitar a alimentação e a rotina.
Se a relação com a comida ficou tensa, evitar procurar ajuda costuma piorar o isolamento. O caminho mais seguro é uma avaliação cuidadosa, com profissionais que possam olhar para o sintoma sem reduzir a experiência da pessoa a “frescura” ou “falta de vontade”.
Como Buscar Ajuda para Fagofobia?
Quando o medo de engasgar começa a mudar a forma de comer, beber e viver o dia a dia, vale procurar avaliação profissional. A fagofobia pode se parecer com outros quadros físicos e, por isso, um estudo de Rijal e Pokhrel (2024) observou que o reconhecimento precoce e o encaminhamento no momento certo são importantes para o manejo adequado.
O primeiro passo costuma ser conversar com um(a) psicólogo(a) e, quando necessário, com um(a) psiquiatra. Em alguns casos, também faz sentido passar por avaliação clínica para descartar outras condições que expliquem a dificuldade para engolir. Esse cuidado é importante porque a fagofobia pode ficar sem diagnóstico por bastante tempo, especialmente quando o medo parece “só ansiedade”, mas já está reduzindo a alimentação e o convívio.
Se o medo começou depois de uma experiência de engasgo, esse dado também merece atenção. Um estudo de Çolak Sivri, Hızarcıoğlu Gülşen e Yılmaz (2018) observou um caso em que a dificuldade para engolir apareceu após a pessoa presenciar o pai engasgando. Isso ajuda a lembrar que experiências marcantes podem ficar associadas ao medo de comer, sem que exista uma causa física identificável.
Em crianças e adolescentes, a busca por ajuda costuma envolver a família. Um estudo de Begotka, Silverman e Goday (2022) observou que uma abordagem estruturada com exposição gradual aos alimentos, após avaliação médica, foi segura e eficaz para ampliar a alimentação. Já o estudo de Khallouk, Belakbir e Atrassi (2024) destacou a importância de orientação parental, acompanhamento multidisciplinar e atenção à nutrição para evitar prejuízos físicos.
Se você sente que está evitando certos alimentos, demorando demais para comer, bebendo menos do que gostaria ou vivendo com tensão antes das refeições, procure ajuda. Não é preciso esperar “piorar” para buscar cuidado.
Um contato inicial com psicoterapia já pode ser um bom começo. Se houver perda de peso, restrição importante da alimentação ou medo intenso de engolir, a avaliação conjunta com outros profissionais pode ajudar a organizar os próximos passos com mais segurança e menos sofrimento.
Fontes
- Case Reports in Psychiatry – Conquering Phagophobia: A Journey to Overcoming the Fear of Choking
- Clinical neuropharmacology – Phagophobia Successfully Treated With Low-Dose Aripiprazole in an Adolescent: A Case Report.
- Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition – JPGN – Protocolized Intervention for Children and Adolescents With Phagophobia
- Scholars Journal of Medical Case Reports – Phagophobia: A Case Report of a 5-Year-Old Girl
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procure ajuda — o CVV atende 24h pelo telefone 188.