
Bruna Caleffi: Falar de luto é falar de uma experiência que atravessa a vida de muita gente, inclusive de quem tenta seguir funcionando enquanto por dentro ainda está em pedaços. Eu vejo esse tema como urgente porque, quando a perda acontece, nem sempre existe espaço para nomear a dor com calma e sem julgamento.
O Que é o Luto e Seus Efeitos na Saúde Mental
O luto é uma resposta humana à perda de alguém importante. Ele pode aparecer nos pensamentos, nas emoções e no comportamento. Há quem sinta tristeza intensa, choque, raiva, culpa, confusão ou dificuldade de aceitar a realidade da perda. Também podem surgir mudanças no sono, no apetite, na concentração e na forma de se relacionar com outras pessoas.
Um estudo de Hilberdink et al. (2023) observou que o luto é uma experiência universal, embora sua expressão possa variar entre culturas. O estudo também destaca que, para a maioria das pessoas, o sofrimento tende a diminuir com o tempo. Ainda assim, uma parte menor dos enlutados pode desenvolver luto prolongado, um quadro em que a dor permanece intensa e persistente.
Na saúde mental, o luto pode se misturar a ansiedade, sintomas depressivos e estresse pós-traumático. Um estudo de Djelantik et al. (2022) observou trajetórias diferentes após a perda: muitas pessoas mostraram recuperação ao longo do tempo, enquanto outras mantiveram sintomas mais intensos por um período prolongado. O estudo também observou que, nos primeiros meses, a intensidade do luto pode ser parecida entre quem depois melhora e quem segue com sofrimento persistente, o que ajuda a lembrar que cada processo tem seu ritmo.
O luto não é fraqueza nem exagero. É uma experiência que pode atravessar a rotina, o trabalho, os estudos e os vínculos familiares. Quando a perda acontece, o funcionamento emocional pode ficar mais pesado, e tarefas simples podem exigir muito mais energia do que antes.
Reconhecer o luto como parte da experiência humana ajuda a tratar esse momento com mais cuidado. Também ajuda a perceber que sentir dor após uma perda não significa estar quebrado; significa que houve um vínculo importante que deixou marca.
Quando o Luto se Torna Patológico: Distúrbio de Luto Prolongado
Na maior parte das vezes, o luto vai se transformando com o tempo. A dor continua existindo, mas muda de forma. Em uma parte menor dos casos, porém, a experiência de perda segue muito intensa e persistente, com prejuízo importante para a vida da pessoa. É nesse contexto que se fala em distúrbio de luto prolongado.
Um estudo de Doering et al. (2022) observou que a morte percebida como inesperada esteve associada a maior gravidade do luto e a maior chance de distúrbio de luto prolongado. O estudo também identificou que a perda de um filho ou de um parceiro esteve associada a maior risco. Isso não significa que toda pessoa enlutada nessas condições desenvolverá esse quadro. Significa que esses elementos merecem atenção clínica.
A relação com a pessoa que morreu também importa. A pesquisa de Doering et al. (2022) reforçou que o tipo de vínculo com o falecido se relaciona ao risco de luto prolongado. Perdas de maior centralidade afetiva costumam mexer mais com a organização emocional, prática e identitária de quem fica.
Já Bristowe et al. (2024) observaram que algumas pessoas vivenciam um estado de travamento entre a perda e a retomada da vida. Elas relatam dificuldade para seguir adiante, como se o futuro planejado tivesse deixado de existir. O estudo também destacou que apoio social e suporte informal ou formal podem ser importantes, embora nem sempre estejam disponíveis de forma consistente.
Esses achados ajudam a entender por que o luto não é igual para todo mundo. A forma como a morte ocorreu, a proximidade com quem morreu e a qualidade do suporte ao redor podem se associar ao modo como o luto se manifesta. Em algumas pessoas, o sofrimento se mantém mais intenso e mais difícil de reorganizar.
Reconhecer esses fatores não é rotular a dor. É nomear aquilo que pode estar dificultando o processo e abrir espaço para cuidado mais atento.
O Que Fazer Com Isso Agora: Enfrentando o Luto
Depois de uma perda, nem sempre a pessoa sente que está “voltando ao normal”. Às vezes, existe um lugar difícil entre a dor da ausência e a tentativa de seguir a vida. Um estudo de Bristowe et al. (2024) observou que algumas pessoas enlutadas descrevem justamente essa experiência de ficarem presas entre a perda e a restauração, com sensação de isolamento e dificuldade para retomar planos que já não fazem sentido como antes.
Isso ajuda a nomear algo importante: luto não é só tristeza. Ele pode mexer com a forma como a pessoa se sente no mundo, com vínculos, rotina, trabalho, estudo e família. Em um estudo de Djelantik et al. (2022), a maioria das pessoas apresentou um curso mais resiliente dos sintomas ao longo do tempo, mas uma parte manteve sofrimento intenso ou teve recuperação mais lenta. O estudo também observou que, nos primeiros meses, os sintomas mais fortes merecem atenção clínica, embora seja preciso cautela antes de concluir que há um transtorno de luto nesse período inicial.
O que pode ajudar agora
- Permitir que a experiência do luto exista, sem se cobrar “superar” rápido.
- Observar como a perda afeta sono, apetite, energia, trabalho, estudo e relações.
- Buscar presença de pessoas seguras, mesmo que seja para conversas curtas.
- Aceitar ajuda prática quando ela vier: companhia, tarefas do dia, organização da rotina.
- Reparar se o isolamento está aumentando, porque a literatura aponta a importância do suporte social no luto.
O suporte social pode fazer diferença na forma como a dor é atravessada. O estudo de Bristowe et al. (2024) observou que pessoas enlutadas valorizam apoio formal e informal, mas nem sempre o encontram com a mesma força ao longo do tempo. Quando esse apoio diminui, a sensação de estar sozinho com a perda pode ficar mais pesada.
Em algumas situações, vale procurar uma avaliação profissional, especialmente quando a dor continua muito intensa, parece travar a vida diária ou vem junto de outros sofrimentos emocionais. Estudos sobre luto reforçam a importância de identificar quem está em maior risco para que medidas preventivas possam ser consideradas cedo, em vez de esperar a situação se agravar.
Se hoje tudo estiver difícil, tente reduzir a meta. Não é preciso resolver o luto. É possível, por enquanto, apenas atravessar o dia com algum apoio, algum descanso e algum contato humano.
Fontes
- Frontiers in Psychiatry – Predictors of Prolonged Grief Disorder in a German Representative Population Sample: Unexpectedness of Bereavement Contributes to Grief Severity and Prolonged Grief Disorder
- Global Mental Health – Bereavement issues and prolonged grief disorder: A global perspective
- Psychiatry Research – The Course of Symptoms in the First 27 Months Following Bereavement: A Latent Trajectory Analysis of Prolonged Grief, Posttraumatic Stress, and Depression
- Social Science & Medicine (1967) – Between loss and restoration: The role of liminality in advancing theories of grief and bereavement.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procure ajuda — o CVV atende 24h pelo telefone 188.