Bruna Caleffi: Eu vejo a ansiedade na adolescência como um tema urgente porque ela costuma aparecer em silêncio, misturada à rotina, às cobranças e às mudanças dessa fase. Falar sobre isso com clareza ajuda jovens e adultos a reconhecerem o sofrimento antes que ele se torne ainda mais pesado.
Como a ansiedade está afetando nossos jovens hoje
A ansiedade tem aparecido com mais força na adolescência, e isso merece atenção. Um estudo de Anderson et al. (2024) observou que esse aumento está ligado a mais de um fator, incluindo pressões da escola, influência das redes sociais, dinâmicas familiares e estressores sociais mais amplos.
Na prática, isso ajuda a entender por que tantos jovens se sentem constantemente cobrados. A escola pode virar um espaço de comparação permanente. As redes sociais podem intensificar essa comparação, ampliar a sensação de exposição e dificultar pausas mentais. Quando isso se soma a conflitos em casa ou a outras pressões do cotidiano, o adolescente pode ficar mais vulnerável ao sofrimento emocional.
Outro ponto importante é que a ansiedade na adolescência não afeta só o humor. Um estudo de Yetim et al. (2024) observou que as relações com os pares estão associadas à ansiedade e à satisfação com a vida, o que mostra como os vínculos sociais pesam bastante nessa fase.
Quando a ansiedade persiste ao longo da infância e da adolescência, ela também merece acompanhamento cuidadoso. Um estudo de Morales-Muñoz et al. (2021) observou associação entre níveis persistentes de ansiedade e maior chance de desfechos psiquiátricos na vida adulta. Isso não significa destino, mas reforça a importância de olhar cedo para o sofrimento emocional.
Adolescência já é uma fase de mudanças intensas. Quando a ansiedade entra em cena, estudar, dormir, socializar e até descansar podem ficar mais difíceis. Reconhecer o que está acontecendo é um passo importante para reduzir o peso silencioso que muitos jovens carregam.
As relações entre pares e o impacto na ansiedade
Na adolescência, o vínculo com colegas ganha um peso enorme. Aprovação, pertencimento e rejeição passam a influenciar muito a forma como o jovem se sente no dia a dia. Quando essas relações ficam frágeis, a ansiedade pode aparecer junto com queda na satisfação com a vida.
Um estudo de Yetim et al. (2024) observou que as relações entre pares se associam à ansiedade e à satisfação com a vida em adolescentes. Os autores também identificaram que essa relação varia conforme o grupo analisado, entre adolescentes nativos e refugiados.
Isso ajuda a entender que não existe uma única experiência adolescente. Para alguns, o ambiente escolar e social pode funcionar como apoio. Para outros, pode ser um espaço de tensão, isolamento ou insegurança. E isso tem impacto direto no bem-estar emocional.
Para adolescentes refugiados, esse ponto merece atenção especial. O estudo mostrou que a identidade do participante moderou a relação entre ansiedade e satisfação com a vida, indicando que o contexto social e as experiências de integração fazem diferença.
Na prática clínica e no cuidado cotidiano, vale observar sinais como:
- evitar colegas e atividades em grupo;
- sentir-se constantemente fora do lugar;
- medo intenso de julgamento;
- queda no interesse pela escola ou pelas amizades;
- sensação de que nada melhora nas relações.
Esses sinais não definem uma pessoa, mas podem indicar sofrimento. E sofrimento na adolescência merece escuta séria, sem minimizar como “coisa da idade”.
Também vale lembrar que a família entra nessa rede. Um estudo de Peris et al. (2021) observou que fatores ligados aos pais e à família estão relacionados à ansiedade em crianças e adolescentes, o que reforça que o contexto relacional pode ampliar ou reduzir o impacto do sofrimento.
Quando a ansiedade se mistura com conflitos sociais, a vida vai ficando mais estreita. A pessoa começa a se proteger demais, se calar, se isolar ou viver em alerta. Isso cansa. E, com o tempo, afeta estudo, humor, autoestima e relações dentro e fora de casa.
Por onde começar: caminhos para reduzir a ansiedade na adolescência
A ansiedade na adolescência raramente aparece por um único motivo. Um estudo de Anderson, Valiauga e Tallo (2024) observou que a ansiedade em adolescentes está ligada a vários fatores ao mesmo tempo, como pressão escolar, influência das redes sociais, dinâmica familiar e estressores sociais mais amplos. Isso ajuda a entender por que soluções muito simples costumam falhar.
Quando a ansiedade se mantém por muito tempo, ela merece atenção. Um estudo de Morales-Muñoz, Palmer e Marwaha (2021) observou que níveis persistentes de ansiedade na infância e na adolescência estiveram associados a maior risco de experiências psicóticas e de transtorno psicótico na vida adulta. O estudo não prova causa, mas reforça a importância de olhar cedo para o sofrimento emocional que se prolonga.
Em muitos casos, o ambiente ao redor faz diferença. Um estudo de Peris, Thamrin e Rozenman (2021) observou, ao revisar intervenções familiares, que fatores ligados aos pais e à família são correlatos bem documentados da ansiedade em crianças e adolescentes. Isso sugere que não basta olhar apenas para o jovem isoladamente; o contexto relacional também importa.
As relações com colegas também entram nessa equação. Um estudo de Yetim, Çakır e Bülbül (2024) observou que as relações com pares mediaram a relação entre ansiedade na adolescência e satisfação com a vida. Em outras palavras, a qualidade dos vínculos com outros jovens se mostrou relevante para a forma como a ansiedade se conecta ao bem-estar.
Onde vale começar, na prática
- Observar o que está pesando mais: escola, redes sociais, conflitos em casa, amizades, rotina excessiva ou mudanças importantes na vida.
- Conversar sem pressa e sem cobrança. Adolescentes costumam se abrir mais quando não se sentem julgados.
- Acolher a família como parte do processo, quando isso fizer sentido. O que acontece em casa pode aliviar ou intensificar o sofrimento.
- Prestar atenção às relações com colegas, porque isolamento, rejeição ou conflito podem piorar a experiência de ansiedade.
- Reduzir a ideia de que o adolescente precisa dar conta de tudo sozinho. Apoio consistente costuma ser mais útil do que pressão por desempenho.
Quando a ansiedade aparece junto de queda no rendimento, irritabilidade, afastamento das pessoas, dificuldades para dormir ou sofrimento que não melhora com o tempo, procurar avaliação psicológica pode ser um passo importante. Intervenções clínicas, familiares, escolares e comunitárias podem ter espaço nesse cuidado, como aponta o estudo de Anderson, Valiauga e Tallo (2024).
Para pais, mães e responsáveis, uma postura útil costuma ser menos sobre vigiar e mais sobre sustentar presença. Para adolescentes, pode ser um alívio perceber que ansiedade não é falta de força. É um sinal de que algo está exigindo demais. E isso pode ser cuidado com seriedade, sem culpa e sem improviso.
Fontes
- Biological Psychiatry – Persistent Childhood and Adolescent Anxiety and Risk for Psychosis: A Longitudinal Birth Cohort Study
- European Child and Adolescent Psychiatry – Peer relationships, adolescent anxiety, and life satisfaction: a moderated mediation model in Turkish and syrian samples
- Journal of Affective Disorders – Family Intervention for Child and Adolescent Anxiety: A Meta-analytic Review of Therapy Targets, Techniques, and Outcomes.
- Journal of Child and Adolescent Psychiatric Nursing – Contributing Factors to the Rise in Adolescent Anxiety and Associated Mental Health Disorders: A Narrative Review of Current Literature
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procure ajuda — o CVV atende 24h pelo telefone 188.