Publicado em 6 de agosto de 2026Bruna Caleffi

Sala minimalista com laptop, chá e pessoa de perfil; destaque para apostas online.

Bruna Caleffi: Falar de apostas hoje é falar de um tema que atravessa rotina, dinheiro, ansiedade e saúde mental. Vejo muitas pessoas tentando lidar com pressão emocional e financeira ao mesmo tempo, e as apostas entram justamente nesse espaço de fragilidade. Por isso, acho importante olhar para o assunto sem julgamento e sem romantização.

Como a publicidade afeta o comportamento em apostas

A publicidade não fica só na tela. Um estudo de García-Pérez et al. (2024), publicado em Public Health, observou que investimentos em anúncios, promoções e patrocínios estiveram associados ao aumento de novas contas, contas ativas, depósitos e valor total apostado.

Na prática, isso ajuda a entender por que tanta gente passa a apostar com mais frequência quando a exposição às campanhas cresce. O estudo também observou que bônus e promoções tiveram relação importante com o comportamento de apostar, e que, para cada euro investido em bônus e patrocínio, houve um aumento estimado nos depósitos feitos pelos jogadores.

Esse tipo de comunicação comercial pode normalizar as apostas e torná-las parte do cotidiano. Para quem já está vivendo ansiedade, sobrecarga, luto, conflito no relacionamento ou estresse financeiro, esse ambiente pode pesar ainda mais na decisão de apostar.

O estudo também observou que, depois das restrições à publicidade de apostas na Espanha, a relação entre gasto com marketing e comportamento de jogo enfraqueceu, com exceção dos bônus, cuja influência parece ter aumentado. Isso reforça a importância de regras claras e fiscalização contínua sobre esse tipo de divulgação.

Quando a aposta aparece como entretenimento fácil, com promessa de vantagem rápida, vale pausar e olhar com mais cuidado para o que está por trás da oferta. Em muitos casos, o impulso não nasce do acaso; ele é estimulado.

Motivos e perigos das apostas na vida cotidiana

As apostas costumam entrar na rotina por caminhos diferentes. Para algumas pessoas, a busca é por uma sensação boa. Para outras, a motivação é ganhar dinheiro, socializar, apoiar uma causa ou escapar de algo difícil. Um estudo de Hagfors, Castrén e Salonen (2022), publicado no Journal of Behavioral Addictions, observou que esses motivos variam conforme idade, gênero e padrão de jogo.

No estudo, o motivo de apostar para buscar alívio ou fuga apareceu com mais força entre pessoas de 25 a 34 anos, donas de casa e quem tinha maior envolvimento com o jogo. Esse mesmo motivo também esteve associado a jogo de risco e jogo problemático. Já o motivo de apostar para sentir prazer apareceu mais entre pessoas mais jovens, com renda mais alta e maior envolvimento com as apostas. Apostar por dinheiro apareceu com mais frequência entre mulheres, enquanto o motivo de socializar foi mais comum entre pessoas mais jovens que apostavam em locais físicos.

Esses achados importam porque mostram que nem toda aposta nasce do mesmo lugar emocional. Quando a aposta vira uma forma de aliviar tensão, silenciar desconforto ou preencher vazio, ela pode se misturar com sofrimento psíquico, cansaço extremo e dificuldades no dia a dia. Em pessoas que já lidam com ansiedade, depressão, luto, burnout ou conflitos no relacionamento, a aposta pode parecer uma pausa rápida. Mas esse alívio tende a ser instável e pode ampliar o risco de perda de controle.

O mesmo estudo observou que os motivos para apostar permaneceram relativamente estáveis ao longo de um ano. Isso sugere que, para algumas pessoas, o padrão de aposta não é algo passageiro. Ele pode se manter quando a prática continua oferecendo uma sensação imediata de escape, excitação ou esperança financeira.

Outro ponto importante é que o risco não aparece apenas no comportamento individual. Um estudo de García-Pérez, Krotter e Aonso-Diego (2024), publicado em Public Health, observou que investimento em publicidade, promoções e patrocínios se associou ao aumento de novas contas, contas ativas, depósitos e valor total apostado. Isso ajuda a entender por que as apostas parecem tão presentes na vida cotidiana: elas não dependem só da escolha individual, mas também do ambiente de exposição constante.

Em termos práticos, isso significa que a vulnerabilidade não é distribuída de forma igual. Pessoas mais jovens, quem aposta online, quem busca nas apostas uma saída emocional e quem já vive sobrecarga ou sofrimento podem ficar mais expostas. O perigo está menos na ideia de diversão isolada e mais na combinação entre gatilhos emocionais, facilidade de acesso e marketing agressivo.

Se a aposta começa a ocupar o lugar de descanso, anestesia ou esperança rápida, vale observar com cuidado o que ela está tentando aliviar.

Reflexões e ações necessárias sobre apostas

As apostas online entraram de vez na rotina de muita gente. Em um cenário de cansaço, pressão financeira e busca por alívio rápido, isso pode parecer inofensivo no começo. Mas um estudo de Håkansson (2020) observou que, durante a pandemia, a maioria não aumentou o comportamento de apostar. Ainda assim, entre as pessoas que aumentaram, houve maior presença de problemas com apostas e mudança no consumo de álcool. O estudo também mostrou que o aumento foi mais frequente em alguns formatos online, como cassinos online e loterias online.

Isso ajuda a entender um ponto importante: momentos de instabilidade podem bagunçar ainda mais o jeito como a pessoa lida com dinheiro, tédio, ansiedade e frustração. Quando a aposta vira uma saída para escapar do desconforto, o risco tende a crescer. Um estudo de Hagfors, Castrén e Salonen (2022) observou que o motivo de escapar apareceu mais entre pessoas mais jovens, pessoas que trabalham em casa e pessoas com maior envolvimento com apostas, além de estar associado a apostas de maior risco e a problemas com apostas.

Outro ponto relevante é a forma como a publicidade e as promoções moldam o comportamento. Um estudo de García-Pérez, Krotter e Aonso-Diego (2024) observou que investimentos em publicidade, promoções e patrocínios se associaram ao aumento de novos cadastros, contas ativas, depósitos e valor total apostado. Ou seja, o ambiente ao redor da aposta não é neutro. Ele influencia escolhas, normaliza o hábito e amplia a exposição.

Nesse contexto, algumas atitudes podem ajudar a reduzir riscos:

  • Desconfie de impulso. Se a vontade de apostar aparece quando bate ansiedade, solidão, frustração ou estresse, vale pausar antes de agir.
  • Observe o papel das promoções. Bônus e ofertas podem parecer vantagem, mas também podem estimular mais entradas e mais depósitos.
  • Evite tratar aposta como solução financeira. O jogo não substitui planejamento, organização de gastos nem reserva para imprevistos.
  • Repare no seu padrão. Apostar mais quando está cansado, preocupado ou tentando esquecer problemas merece atenção.
  • Se houver dificuldade para controlar tempo, dinheiro ou frequência, busque apoio profissional sem esperar o problema aumentar.

A literacia financeira também aparece como um fator importante. Um estudo de Watanapongvanich, Binnagan e Putthinun (2020) observou uma relação negativa entre literacia financeira e frequência de apostas. Isso não significa que conhecimento financeiro resolva tudo, mas sugere que entender melhor dinheiro, risco e decisão pode favorecer escolhas mais cuidadosas.

Na prática, isso pode começar por perguntas simples: quanto posso perder sem desorganizar meu mês? Estou apostando por lazer ou para aliviar algo difícil? Consigo parar quando quero? Essas perguntas não servem para julgar. Servem para trazer clareza.

Em casa, no trabalho ou na faculdade, vale conversar sobre apostas sem moralismo. O objetivo não é demonizar quem aposta. É reconhecer que marketing, contexto emocional e pouca margem financeira podem se somar e aumentar a vulnerabilidade. Quanto mais cedo essa leitura acontece, mais fácil fica cuidar do dinheiro, da rotina e da saúde mental.

Fontes

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procure ajuda — o CVV atende 24h pelo telefone 188.

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